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O turco Apo Çoruhlu é o fundador dos operadores turísticos Pacha Tours e Terra Brasil. Vive em Portugal há 32 anos.

A Turquia “era um destino muito pouco explorado. E decidi criar um operador turístico, a Pacha Tours, exclusivamente para organizar viagens para a Turquia. Na altura, eram voos charters, não havia qualquer voo direto. Na época, os portugueses que visitavam a Turquia tinham interesses culturais. Queriam conhecer Istambul e a Capadócia. Não era tanto a praia”. Memórias de Apo Çoruhlu, que fixou residência em Portugal há 32 anos, e que criou aqui a sua primeira empresa, na área do turismo.

Çoruhlu recorda que “foi necessário formar guias fluentes em português”. Assim, no início dos anos 90, aqueles que falavam francês foram trazidos para Portugal para “um curso intensivo de três/quatro meses”. Foi uma época de “boom turístico” na Turquia, que se prolongou até fevereiro de 1999, quando foi capturado Abdullah Öcalan, o líder do PKK, organização independentista curda. “Houve receio de represálias” e muitas viagens foram canceladas. Em Portugal, para responder a esta nova realidade, Çoruhlu funda uma outra operadora turística, a Terra Brasil, com viagens para o Nordeste brasileiro, também então um destino inexplorado. “Foi um sucesso”, diz. E acabou por alargar a oferta com novos destinos: Marrocos, Grécia, Tunísia.

Cria ainda outras empresas no mesmo setor, mas atualmente apenas opera uma empresa na Turquia, que funciona totalmente online, a Medi Travel, que vende destinos no Mediterrâneo oriental, Egito e Israel na América do Sul e Central. Em Portugal, dirige desde 2014 uma empresa que ajuda os compatriotas nos vistos gold e na área do imobiliário. “Há prédios em Lisboa que comprámos, reabilitámos e estão hoje totalmente ocupados por turcos”, conta. Há “turcos que vêm viver para Portugal descontentes com a situação política”, afirma.

Uma prova do afeto e do interesse que Çoruhlu tem por Portugal é o blogue Portekizli (De Portugal), também presente no Facebook, onde escreve sobre diferentes aspetos do nosso país e salienta a história, cultura e paisagem nacional. “Gosto muito do Norte, de Braga, do Gerês. Gosto muito de estar no Gerês”, refere. Para o empresário, que tem também nacionalidade portuguesa, o rio Douro “é o mais bonito do mundo”. E sente-se tão ou mais português do que turco. “Fiquei muito feliz mesmo quando Portugal foi campeão europeu. Senti-me mesmo português.” Afinal, “já vivi mais anos em Portugal do que na Turquia”. O futebol é uma das grandes paixões deste “sportinguista de lugar cativo”.

Teve uma breve incursão no setor da restauração, tendo aberto, em 2005, dois restaurantes de gastronomia turca e grega. “Trouxe os cozinheiros e até padeiros. Foi um sucesso”, mas, sendo uma tarefa “absorvente”, acabou por os vender.

A primeira vez que esteve em Portugal, “tinha 19 anos”, foi em fevereiro de 1977. “Viajei de Bordéus num autocarro até à Casal Ribeiro”, rua de Lisboa ao Saldanha, onde se situava na época uma central de camionagem. A primeira impressão foi negativa: pareceu-lhe o “pior país da Europa, depois da Albânia”, talvez por ter chegado de noite, num dia de inverno. Uma perceção que rapidamente se alterou, admite. Mas Çoruhlu nota que “Portugal era um país muito diferente. Evoluiu muito mesmo”.

Veio pelo Carnaval para conhecer pessoalmente a sua futura mulher, então no primeiro ano do curso de Medicina, com quem mantinha correspondência no âmbito do programa Penfriends (Amigos por correspondência). “Escrevíamos em francês”, lembra. No ano seguinte, será a vez de a estudante de Medicina visitar Çoruhlu em Istambul. O “casamento civil foi em Portugal”, em 1985, “depois de concluirmos os estudos”. Mas “a festa foi na Turquia”, recorda.

“Inicialmente, ficámos em Istambul, mas era complicado na época um estrangeiro exercer Medicina. Havia leis que o proibiam.” E acabaram por se mudar para Portugal. “Cinco anos depois, aquelas leis foram abolidas.”

A sua mulher fala “fluentemente turco” e o português de Çoruhlu, que fez este ano 60 anos, é praticamente perfeito. O casal tem uma filha.

Para o empresário turco “não existe um povo como o português”. A riqueza deste país são as pessoas”, prossegue, notando que, contudo, “os portugueses não sabem o seu próprio valor. Estão sempre a desvalorizar” as coisas nacionais. Talvez com exceção do clima, que é dos aspetos que mais aprecia em Portugal, em paralelo com o ambiente de segurança que sente. E a gastronomia, que considera “bastante parecida” com a turca. “Esta comida não existe igual noutra parte do mundo”, uma perceção que não é apenas sua, mas de amigos que o visitam. “Até se pode comer bem num restaurante simples.” Çoruhlu recorda que ao chegar a Portugal, “não conseguia comer bacalhau. Era muito pesado para mim, muito salgado. Agora é um dos meus pratos preferidos”.